É de se estranhar. É de se estranhar que ainda hoje exista alguém assim. Ouvindo Belchior, olhando o trânsito, parando pra conversar (sem dúvida), é de se estranhar.
Quem cantava com vigor tem a vitrola muda, tem ainda os mesmos sonhos escondidos daquela geração que não decolou. E eu sou um de seus filhos. Usando, usando,usando... tudo ao mesmo tempo, tudo pra ontem, me conheço pelo o que diz a CBN e o que escreve Arnaldo Jabor. Todo dia durmo pensando na menina quieta vermelhista, pensando por que nada muda, sentindo culpa e torcendo pra logo acordar. Quem ficou agora esconde a mágoa, diz bom dia e dá risada, vai comprar pão numa padaria do Leblon, tem no rosto um tom, quase que uma marca, se soubesse o que é, sentiria falta, mas esse povo perdeu o seu encanto quando 68 anunciou seu réveillon.
Livro do mês no criado mudo
- A História dos Mártires - John Foxe
Vilarejo
Olhando a foto em que meu pai posava para a câmera de minha irmã, entrando na porta da casa onde nasceu... eu chorei.
Casa de barro seco, sem luz, globo ou qualquer coisa dessas modernas. Minha linhagem é de homens fortes que sobrevivem desde o sertão até São Paulo. Como pode? Sem nunca ter andado por tais bandas minha alma cheira à terra seca, a barro e à água gelada, é como seu eu já tivesse corrido por ali. O carvão queimado no canto, o chão rachado... A mulher na porta quebrando pedras provavelmente seria minha mãe ou irmã, são duas horas da tarde e não há um cheiro, uma sombra, uma nuvem, simplesmente nada.
Nada ficou pra trás, nem as cercas que pararam de “arrodear” o gado magro e passaram a aprisionar as saudades de um alguém comum, que como tantos outros, um dia volta pro seu lugar, pra sua terra, pra lembrar daquilo que nem por Homem, nem por Deus se pode ou se deve esquecer...
Casa de barro seco, sem luz, globo ou qualquer coisa dessas modernas. Minha linhagem é de homens fortes que sobrevivem desde o sertão até São Paulo. Como pode? Sem nunca ter andado por tais bandas minha alma cheira à terra seca, a barro e à água gelada, é como seu eu já tivesse corrido por ali. O carvão queimado no canto, o chão rachado... A mulher na porta quebrando pedras provavelmente seria minha mãe ou irmã, são duas horas da tarde e não há um cheiro, uma sombra, uma nuvem, simplesmente nada.
Nada ficou pra trás, nem as cercas que pararam de “arrodear” o gado magro e passaram a aprisionar as saudades de um alguém comum, que como tantos outros, um dia volta pro seu lugar, pra sua terra, pra lembrar daquilo que nem por Homem, nem por Deus se pode ou se deve esquecer...
Dias Normais
Escrevo em uma tarde de quinta-feira. O tempo nublou. O dia todo com sol e agora de tarde, nublou. De camiseta branca e tênis velho, com frases rabiscadas em inglês e fones de ouvido, The Clash e um anel com dois peixes. Hoje eu voltei, senti de novo certas coisas que só crianças sentem, quer dizer, crianças assim como eu, de calça jeans e palhetas, eu vou, sigo com Cristo, Batman e Blusa de frio. As janelas fechadas, os carros querendo chegar pra assistir programas de mulher antes das seis, seis e pouco. É interessante, pensar de onde vem tanta fumaça, tanta neblina, como se aquela cena do menino no elevador fosse real, sobrevoando a cidade com um cara de chapéu e cabelo engraçado. Tudo o que eu tenho, uma certeza.
On The Way Home
A caminho de casa, sentado na estrada, aqui estou. Nesses tempos de web 2.0 tudo é na base das comunidades, aliás nunca esteve tão em moda o uso dessa palavra, mais do que tribo, grupo, associação, a comunidade reflete esse estilo pós-moderno de ser e pensar. O termo serve quase que pra tudo, desde as famigeradas comunidades no orkut, até os filmes politicamente-redeglobo-corretos que falam das favelas desse Brasil, ou melhor, das comunidades. Ao mesmo tempo a concepção da própria palavra fica distante de seu original, a idéia de viver em função do outro, dividindo e trabalhando em conjunto tem se tornado algo cada vez mais demodê, não mais do que essa palavra.
Será que esse novo tipo de comunidade, cada um por si e Deus por todos (por todos da comunidade Dele), não revela que entramos em um caminho sem volta? Ou será que essa é a única forma de continuarmos nos relacionando, ainda que superficialmente? Será que construindo minhas comunidades eu não esqueci de construir minhas relações? Será que o Mário Sérgio Cortella desvendou todo o segredo? Sei lá...
Será que esse novo tipo de comunidade, cada um por si e Deus por todos (por todos da comunidade Dele), não revela que entramos em um caminho sem volta? Ou será que essa é a única forma de continuarmos nos relacionando, ainda que superficialmente? Será que construindo minhas comunidades eu não esqueci de construir minhas relações? Será que o Mário Sérgio Cortella desvendou todo o segredo? Sei lá...
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